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The Great Conversation, 1: The Tradition of the West

Este texto resume os pontos mais importantes do capítulo 1 do livro “The Great Conversation: The Substance of a Liberal Education“, de Robert M. Hutchins, publicado como Volume 1 da coleção Great Books of the Western World, pela Enciclopédia Britânica, em 1952:

Neste capítulo, páginas 1 a 6, Hutchins nos mostra que a tradição da civilização ocidental está incorporada na Great Conversation (Grande Diálogo) que ocorreu entre os maiores gênios, sábios e pensadores do ocidente, estando esse diálogo registrado nos Great Books (Grandes Livros) desde o alvorecer da história até os dias de hoje.

Hutchins ainda faz um paralelo entre a Great Conversation e a Educação Liberal (já resumida em outro artigo), mostrando a necessidade do resgate da Educação Liberal através das Artes Liberais, tendo os Great Books como principal fonte de ensinamento.

Note que nada do que se segue é um pensamento original meu mas, sim, de Robert M. Hutchins. Eu apenas resumi o que entendi de seu pensamento em poucos parágrafos e de modo objetivo. Acrescentei algumas explicações e figuras, quando julguei necessário, para melhorar a explicação do conteúdo. Sugiro a leitura do original caso o resumo abaixo lhe interesse.

Por último, me permito um deslize acadêmico: como as idéias abaixo não são minhas, são de Hutchins, eu deveria citá-lo várias vezes nos parágrafos abaixo. Mas isso tornaria o texto absolutamente repetitivo e enfadonho: “segundo Hutchins”, “de acordo com Hutchins”, “Hutchins acredita que”… Para evitar essa repetição, fica aqui, desde já, avisado que apesar de não referenciar Hutchins abaixo, o pensamento e o que eu aprendi a seguir é de Hutchins. Reescrevi ou simplesmente transcrevi vários trechos de seu livro, procurando organizar e resumir o que eu entendi e aprendi.

1. A Tradição Ocidental e a Great Conversation

A tradição ocidental está incorporada na Great Conversation, o Grande Diálogo travado entre os maiores gênios, pensadores, sábios e artistas liberais do ocidente desde o alvorecer da história. Esse “diálogo” refere-se às discussões interligadas e inter-referenciadas, entre esses pensadores, que se estenderam por séculos (quase 3.000 anos).

A Great Conversation pode ser ilustrada pela obra prima de Raffaello Sanzio da Urbino, “A Escola de Atenas”, e uma adaptação moderna dessa pintura para incluir pensadores mais recentes:

Retirado do filme “The History of The Modern Great Books Movement”, Angelicum Academy

Esse diálogo é uma das características definidoras do ocidente e, de fato, poderíamos dizer que o ocidente é a Civilização do Diálogo, do espírito de interrogação, questionamento e investigação. Tudo pode, e deve, ser discutido.

Pode-se até dizer que o ideal ocidental não é representado pelas diferentes correntes de pensamento presentes na Great Conversation, o ideal ocidental é a própria Conversation em si mesma, o próprio Diálogo.

2. A Great Conversation e os Great Books

Toda a tradição ocidental incorporada no Grande Diálogo foi registrada nas obras dos pensadores ocidentais que, em conjunto, formam os Great Books (os Grandes Livros) do ocidente. Esses livros mantém viva a tradição ocidental contida na Great Conversation.

Obviamente não estão nos livros as artes plásticas nem a música mas, na medida em que esses livros podem representar a idéia de uma civilização, a idéia e a tradição da Civilização Ocidental está neles representada.

Além da tradição esses livros contém também os maiores expoentes dessa tradição, os maiores e melhores professores das artes liberais, os modelos para a educação superior, para a educação liberal e para as artes liberais. Eles nos fornecem uma visão de grandeza que eleva o homem para além dele mesmo através de sua inspiração e exemplo.

Através desses livros ainda estamos no mundo real mas, por eles, olhamos para o mundo através dos olhos de sábios e gênios, e alguma dessa genialidade e sabedoria acaba se tornando nossa.

Esses livros, até o começo do século XX, sempre tiveram papel central e de destaque na educação ocidental e eram o principal instrumento da educação liberal. Mas o que é educação liberal?

3. A Educação Liberal

A educação liberal é a educação que o homem adquire como um fim em si mesma, para nenhum outro propósito que não seja ajudá-lo a se tornar um homem melhor, a conduzir e melhorar sua própria vida contribuindo na condução e melhoria da vida de outros.

A educação liberal almeja a excelência humana, privada e pública (em sua comunidade), a excelência do homem como homem e como cidadão.

Está preocupada com o homem como um fim em si mesmo, não como um meio; está precupada com a vida como um fim em si mesma, e não com os meios de ganhar a vida, os meios de se viver. É a educação dos homens livres.

O cerne da educação liberal, de certa forma, consiste:

  • Do reconhecimento dos problemas básicos que afligiram (e ainda aligem) a humanidade;
  • No conhecimento das distinções e inter-relações entre esses problemas;
  • No esclarecimento desses problemas;
  • Na compreensão de como um problema leva a outro e na compreensão de que a solução de um pode levar a solução de outro;
  • Na compreensão dos métodos pelos quais os problemas podem ser solucionados;
  • Na proposição de padrões para testar as soluções propostas aos problemas; e
  • Na compreensão das grandes idéias.

O homem educado liberalmente entende, por exemplo:

  • A relação entre o problema da imortalidade da alma e o problema da melhor forma de governo;
  • Que um problema não pode ser solucionado com o mesmo método do outro problema;
  • As distinções e inter-relações entre os campos básicos do saber;
  • As diferenças e conexões entre poesia e história, ciência e filosofia, ciência teórica e prática; conhece os métodos apropriados de cada uma;
  • As idéias relevantes aos problemas básicos da humanidade;
  • O que significa a alma, estado, Deus, beleza e todas as outras idéias que são básicas à discussão das questões fundamentais da humanidade;
  • Os insights que essas idéias, isolada ou conjuntamente, fornecem sobre a experiência humana;
  • O mundo das idéias e o mundo prático, pois entende a relação entre ambos; e
  • Como operar bem em qualquer campo.

O método da educação liberal são as artes liberais e o resultado da educação liberal é a disciplina nessas artes. A educação liberal é indispensável mas é o homem que deve buscá-la, decidindo se permanecerá um ignorante pouco desenvolvido ou se buscará alcançar o ponto mais alto que é capaz.

Considerando que o ideal democrático é a igualdade de oportunidade para o completo desenvolvimento humano, a devoção às artes liberais e à educação liberal no ocidente podem ter tido grande responsabilidade no desenvolvimento da democracia como um ideal.

[INÍCIO DE NOTA PESSOAL]: nesse ponto Hutchins não explica o que são as artes liberais, talvez porque na época em que escreveu (final da década de 1940 e início de 1950) esse fosse um conhecimento difundido. Eu não sabia quais eram as artes liberais.

Com o auxílio do livro da Irmã Miriam Joseph (O Trivium: as artes liberais da lógica, da gramática e da retórica) e do livro organizado por John Martineau (O Quadrivium: as quatro artes liberais clássicas da aritmética, da geometria, da música e da cosmologia) eu aprendi que as artes liberais, no conceito clássico, denotam os sete ramos do conhecimento que iniciavam o jovem em sua vida de aprendizagem: lógica, gramática, retórica, aritmética, música, geometria e astronomia. As artes liberais remontam à Era Clássica, ao legado cultural greco-romano, mas a divisão entre Trivium e Quadrivium ocorreu na Idade Média:

Retirido do livro da Irmã Miriam Joseph, O Trivium: as artes liberais da lógica, da gramática e da retórica, pág. 27.

Essas artes são chamadas de liberais no sentido de que porporcionam ao homem as vias, os caminhos, para que ele liberte-se da ignorância e evite o erro, ou seja: através das artes liberais o homem obtém a educação liberal, libertadora, do homem livre [FIM DE NOTA PESSOAL].

4. Os Great Books e a Educação Liberal

Considerando que os Great Books foram escritos pelos maiores pensadores, gênios, sábios e artistas liberais de todos os tempos, é natural que esses livros sejam centrais à educação liberal.

Esses pensadores foram os maiores professores; ensinaram uns aos outros; ensinaram todas as gerações passadas até o início do século XX, quando a educação liberal começou a sumir das escolas. A questão agora é se eles ainda podem nos ensinar, hoje em dia.

Talvez o que melhor que o ocidente ainda tenha a oferecer sejam as artes liberais e a educação liberal.

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