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The Great Conversation, 4: The Disappearance of Liberal Education

Este texto resume os pontos mais importantes do Capítulo 4 do livro “The Great Conversation: The Substance of a Liberal Education“, de Robert M. Hutchins, publicado como Volume 1 da coleção Great Books of the Western World, pela Enciclopédia Britânica, em 1952:

Neste Capítulo 4, páginas 24 a 31, Hutchins aponta dois outros fatores muito importantes como causa do desaparecimento da educação liberal no ocidente: o decaimento interno (causado pelos próprios professores) e a confusão externa (causado pelo método experimental das ciências naturais). Ao final ele discute que a tecnologia, a experimentação, a industrialização, a ciência e a especialização não tornam o Grande Diálogo obsoleto, ao contrário: o tornam ainda mais necessário (juntamente com a educação liberal).

[NOTA PESSOAL]: nada do que se segue é um pensamento original meu mas, sim, de Robert M. Hutchins. Eu reescrevi ou simplesmente transcrevi vários trechos de seu livro, procurando organizar e resumir o que eu entendi e aprendi, em poucos parágrafos e de modo mais objetivo. Acrescentei algumas explicações e figuras, quando julguei necessário, para melhorar a exposição do conteúdo. Sugiro a leitura do original caso o resumo abaixo lhe interesse. Também me permiti um deslize acadêmico: como as idéias abaixo não são minhas, são de Hutchins, eu deveria citá-lo várias vezes nos parágrafos abaixo. Mas isso tornaria o texto absolutamente repetitivo e enfadonho: “segundo Hutchins”, “de acordo com Hutchins”, “Hutchins acredita que”… Para evitar essa repetição, fica aqui, desde já, avisado que apesar de não referenciar Hutchins abaixo, o texto, o pensamento e o que eu aprendi, a seguir, é de Hutchins. Obviamente, qualquer falha no entendimento e reprodução dos ensinamentos do livro, é, obviamente, de minha inteira responsabilidade, não do autor original.

1. Escolarização Universal versus Educação Liberal Universal

O ocidente ainda não aceitou a proposição de que o ideal democrático demanda uma educação liberal para todos. A opinião que parece prevalente é que a democracia demanda escolarização universal e não educação liberal universal. De certo modo o que ocorre nas escolas é de menor importância do que ter todos na escola e, assim, o ocidente se comprometeu com um sistema de educação compulsório, gratuito e universal para as crianças e jovens.

O objetivo dessa escolarização universal parece ser apenas o de manter as crianças em um ambiente sanitário fora do mercado de trabalho, até que estejam prontas para aprender uma profissão e trabalhar. Se o objetivo da escola é, assim, alguma outra coisa que a não de fato a educação, é fácil alcançar a escolarização universal: basta criar leis de escolarização compulsória e construir prédios.

A função do sistema educacional tem relação com a mente. Deve estabelecer os fundamentos racionais para a boa saúde, moral e comportamento social. E esses fundamentos são o resultado da educação liberal, da educação através dos Great Books e das artes liberais, não da escolarização universal.

A educação liberal foi a educação dos Founding Fathers e era dominante até pouco antes de 1900. Por que ela desapareceu? Além das possíveis causas já discutidas (no Capítulo 2 e no Capítulo 3) dois outros fatores parecem ter tido papel importante: decaimento interno e confusão externa.

2. Decaimento Interno

Ao final do primeiro quarto do século XX os Great Books e as Artes Liberais foram praticamente destruídas pelos seus próprios professores. Esses livros tornaram-se domínio privado de acadêmicos e estudiosos.

A palavra “clássicos” passou a se limitar às obras que foram escritas em grego e latim e os professores, de certo modo, passaram a se assemelhar a cientistas que assassinam para dissecar: os professores não estavam mais interessados nas idéias dos pensadores clássicos mas, sim, em detalhes filológicos; desse modo acabaram “assassinando” os ideais liberais desses ensinamentos e focaram-se na linguística, exigindo além disso que os livros fosses estudados em grego e latim.

As artes liberais nas mãos desses professores tornaram-se um exercício sem sentido: os alunos assistiam a cursos sobre Platão por anos, antes de descobrirem quais realmente as idéias dele.

O resultado foi um acelerado decaimento da educação liberal e, ao final do primeiro quarto do século XX, esses livros não eram estudados mais pelo aprendizado com os pensadores liberais mas, apenas, como um requisito para entrada ou graduação em uma faculdade.

Os próprios professores acabaram privando gerações de alunos de uma parte importante de sua herança cultural e do treinamento necessário para compreendê-la.

3. Confusão Externa

Um outro problema ocorreu com a filosofia, história, literatura e com as disciplinas que originaram-se da filosofia (ciências políticas, ciências sociais, psicologia): uma confusão a respeito da natureza e escopo do método científico.

Os professores das ciências humanas e sociais, fascinados pelas maravilhas do método experimental das ciências naturais, foram dominados pela idéia de que maravilhas similares poderiam ser obtidas em seus campos de estudo pelo uso dos mesmos métodos.

Pior ainda, eles convenceram-se de que resultados obtidos por qualquer outro método que não o científico não valiam mais. Isso descartou imediatamente os sábios e pensadores que tiveram o azar de nascer antes dos métodos empíricos das ciências naturais. Os insights desses pensadores foi considerado ultrapassado.

Já que o objetivo dos novos filósofos, historiadores, críticos de artes e literatura e cientistas sociais e humanos deveria ser o mais científico quanto possível, eles não se preocuparam mais com as idéias e a tradição “não científica” do ocidente. Também não aceitavam mais a utilidade das artes liberais, exceto as associadas à matemática.

Essa confusão fez com que os Great Books e as Artes Liberais fossem identificadas pelo público como “línguas mortas”, rotinas secas, reflexos de um passado pré-científico arcaico. Se os triunfos da industrialização foram devidos aos triunfos da tecnologia, que foram possíveis devido aos triunfos da ciência que, por sua vez, só foram alcançáveis através da educação especializada e profissional, então deveríamos realmente esquecer a educação arcaica do passado e preparar os jovens para o novo mundo especializado, científico, tecnológico, industrial.

Essa revolta contra a educação liberal, apesar de não justificada, contribuiu para seu desaparecimento. A crença de que os métodos da ciência experimental poderia substituir completamente os métodos históricos, filosóficos e as artes também é injustificada, e também contribuiu para o desaparecimento da educação liberal.

4. A Comunidade do Futuro e o Grande Diálogo

Será que a ciência, tecnologia, industrialização e especialização tornaram o Grande Diálogo irrelevante? Não!

A especialização, ao invés de tornar o Grande Diálogo irrelevante, o faz mais pertinente e necessário do que nunca. A especialização torna a comunicação entre os homens mais difícil (conforme visto no Prefácio) e isso é um grande problema à criação e à vida em uma comunidade.

Uma comunidade depende de comunicação, não do tipo obtido por avanços no transporte, correios, telégrafos, telefones ou rádios: eles são apenas meios; a comunicação que se trata aqui é ter algo inteligente e humano para se comunicar. Sem algo inteligente a ser comunicado, os meios de comunicação tornam-se caminhos para trazer as bombas e propaganda dos inimigos para dentro de nossos lares.

Para se comunicar de modo inteligente e humano é necessário uma linguagem comum, idéias comuns, padrões humanos em comuns. E é exatamente esse tipo de coisa que o Grande Diálogo nos proporciona.

A questão não é excluir o especialista da comunidade, a questão é que à luz do Grande Diálogo, seu conhecimento específico “perde” a particularidade e torna-se um meio de penetrar os Greate Books e, assim, contribuir para elevar a si mesmo e a comunidade.

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